domingo, 25 de março de 2012

E os vinhos de 2010 e 2011, como estavam?

As férias de inicio de Março não foram exclusivamente dedicados a poda.

Aproveitei-as tambem para tratar dos vinhos de 2010 e 2011.

A prova mostrou vinhos de 2010 muito diferentes uns dos outros e um 2011 que me deixou muito orgulhoso, pois notei que o trabalho arduo e preciso que realizei na vinha esta a dar resultados.
Um vinho cheio de caracter.

Nos 2010, encontrei os vinhos como disse bastante diferentes.
O Tinta Pinheira em grande forma, muito intenso aromaticamente, com frutos vermelhos frescos, pederneira e alguns aromas da barrica a combinar.
O Jaen, surpreendeu-nos, ja que se apresentou reduzido e por isso tive que o deixar umas horas ao ar livre quando o passei a limpo.
Nos 3 vinhos de vinhas velhas com castas misturadas (com a Baga como casta dominante), os aromas estavam mais contidos, principalmente o Grila, com aromas bastante fumados, cha, mata.
Continuam a ser vinhos elegantes, marcados por uma acidez vibrante.

Depois de provar cada barrica, a etapa seguinte foi a das analises.

Analises ao sulfuroso livre nos 2010 e analise ao acido malico no 2011.
Para tal mais uma vez recorri ao laborotario da adega da Pellada.

Amostras dos vinhos de 2010 e de 2011
As analises mostraram um 2011 com o malico acabado (ou praticamente acabado 0,14 g/L).
Medi o sulfuroso livre que resta da altura da vindima (7 mg/l).
Decidiu-se não deitar mais por enquanto.
De momento é continuar a atestar bem as barricas.
Depois, quando la voltar em Maio ja os passo a limpo e ja corrijo o sulfuroso.

Nos 2010, fiz a correcção do sulfuroso para esta ultima fase na barrica, pois o sulfuroso livre ja andava a volta dos 10 mg/L (vs objectivo 25).
Passei-os todos a limpo, com a ajuda do meu sogro.
Mais uma vez um trabalho duro, a força dos braços e da gravidade, sem bombas.
Tirei umas fotos para contar isso mais em pormenor num proximo post.

Para terminar deixo uma foto do Carriço, figura mitica que os que ja passaram pela Pellada bem conhecem!

Carriço, o burro mais esperto que conheço :)

quinta-feira, 22 de março de 2012

A hora da "bucha"

Quem trabalha no campo tem o habito de fazer uma pausa a meio da manhã para descansar um bocado e satisfazer o estomago.


Nos citadinos, com as nossas vidas atormentadas, não temos este habito.



Mas para o pessoal do campo, trata-se de um ritual.
Não o respeitar poderia ser considerado sacrilégio.


As 10 da manhã chega a hora da "bucha"!


Nesse momento tudo serve de mesa improvisada, seja uma pedra, seja um carrinho de mão virado ao contrario...
Ou mesmo o solo, desde que a comida seja pousada num pano. 


Trata-se de um momento de convivio, onde os corpos e as almas procuram reconforto. 


Como não poderia deixar de ser, tambem a nossa poda 2012 teve as suas buchas. 


Trouxe-se o pão, o queijo, o presunto, o chouriço...


E claro esta!
O vinho!
Neste caso branquinho.


Depois, o pessoal la volta ao trabalho, ja com outra alegria.

sábado, 17 de março de 2012

A equipa da poda 2012

Este post serve de homenagem ao pessoal que esteve comigo na poda 2012.

A equipa chegou a ser composta por 9 pessoas.
Assim sendo, a poda e a empa foram mais rapidas, durando apenas 2 dias (vs 3 dias no ano passado, a 5 pessoas).

Vou, de seguida, apresentar os membros da equipa 2012.

Iniciamos a primeira manhã a 5 pessoas

Ti Zé Rebelo, 87 anos de experiência!!

Os irmãos Borges, João e Carlos

O meu sogro e o Ti Zé Rebelo, ao inicio da manhã do primeiro dia

Votre serviteur

Da parte da tarde tivemos "reforços" de peso :)

O meu ti Zé Maria juntou-se aos "artistas"
Ajudando assim a adiantar a poda
O meu primo, Flavio, aka "Sokota"
O meu pai



e o meu tio João Manuel
Trataram os três de apanhar as vides e junta-las fora da vinha
Foi uma equipa bem composta e equilibrada, com os de maior experiência e técnica, "os artistas", a podar e empar e os outros a tratarem das tarefas mais simples (apanhar e evacuar as vides, atar aquando da empa...)

No dia seguinte, o Carlos tinha compromissos e não se pode juntar a nos, ficou assim a equipa reduzida a 8 elementos. No entanto demos bem conta do recado.

Bons momentos!

segunda-feira, 12 de março de 2012

Back to Paris

Estou de volta a Paris depois de uma boa semana dedicada ao meu projecto no sopé da Serra da Estrela.
Ja são momentos que fazem parte do passado, o tempo continua a correr e amanhã la tenho de regressar ao meu emprego, aquele que me permite financiar estas doidices.
Estou cansado e as usual um pouco demoralizado com o regresso. 

Por enquanto não me vou alongar muito em comentarios, farei-o nos proximos tempos. 
Apenas vou deixar algumas fotos que, de certa forma, resumem bem estes dias de inicio de Março.

Tempo das mimosas

A poda com a minha "dream team"
Muita vida neste fim de inverno, com sabor de primavera adiantada


A prova de vinhos de pequenos lavradores, com o copo tipico, cheio, "a rasar"
A procura de solos minerais

Solo e luz sempre presentes nestas "férias"

A passagem a limpo dos vinhos de 2010

Até breve!


quinta-feira, 1 de março de 2012

To do list

Esta quase a chegar a hora de arrancar de férias.
Ja so falta um dia de trabalho e sabado de manhã la vamos nos a Portugal.

Vai ser uma semana intensa, a to do list quase que assusta...

Na vinha ha que podar e empar.



Na parte da adega,  provar os vinhos...


...Passar a limpo os 2011...



Provar as experiencias de blends feitos em dezembro e planificar o futuro dos 2010.



Tambem começar a organizar a ou as vindimas e vinificações de 2012.

Ainda ha mais algumas tarefas de ordem diversas mas vou poupa-los.

Sera que uma semana de "férias" vai chegar?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Episodio 8 : a minha primeira vinificação


Durante a noite de quarta para quinta arranca a fermentação do Jaen.

De manhã cedo, faço as medidas do costume. A temperatura continua a 24°C, mas a densidade ja começou a baixar (1095) indicando que algum açucar ja se transformou em alcool.

Trabalho com as mocas para arejar o mosto e ajudar a difusão dos compostos fenolicos. E um trabalho que realizo varias vezes por dia.



Chego a Pellada contente e aviso o pessoal que a FMA ja começou.

A noite volto a medir e constato uma evolução. A densidade ja baixou para 1070, fico surpreendido pela rapidez, meço a temperatura e vejo 27°C
Penso que esta bem que tenho de ter cuidado para que de noite não se aproxime dos 30°C
Por prevenção ponho no mosto um garrafão de agua congelada que tinha preparado na arca do meu sogro.

Na manhã seguinte, volto a arejar e medir as variaveis. A densidade baixou durante a noite para 1055 e a temperatura continuou a subir estando agora nos 29°C. Fico preocupado com a temperatura e ponho mais três garrafões de gelo no mosto.



Chego a Pellada e explico o sucedido: “a densidade esta a baixar rapidamente, parece um formula 1”, “estou preocupado com a temperatura, ja vai nos 29°C”. 
Respondem-me para não me preocupar, que é normal e que até é bom fermentar no inicio a temperaturas mais altas, perdendo assim compostos menos bons e aromas precoces que são efemeros e que não interessam. “Ok tudo bem”. Como nos outros dias, volto la de vez em quando para trabalhar com a moca.

A noite volto a medir, a densidade ja esta a 1030 e a temperatura baixou de 1°C.

Dia seguinte de manhã, sabado, la vou eu outra vez medir e realizar os trabalhos com cuidado e como sempre limpando tudo depois de usar e limpando cada gota que caia no chão, pois a higiène é fundamental para prevenir contaminações. 
A densidade ja vai em 1012, ou seja ja estamos perto do fim e a temperatura ainda esta nos 28°C
Fico preocupado porque os garrafões que pus na arca na vespera ainda não congelaram completamente. Apercebo-me que vou ter de preparar muito mais gelo para as fermentações seguintes.

Depois do almoço vou até a adega da Pellada, não vejo ninguem, volto a sair e cruzo-me com a Maria que me diz “anda a casa tomar o café estamos a acabar de almoçar”. “Ok”. 
Tomando o café explico o meu problema. O A. Castro diz-me que nesta fase, tem de se por o mosto a 20°C, pois são os aromas desta fase que importa guardar.

Ok la vou eu a procura de gelo.
A primeira ideia foi de ir as bombas de gasolina a entrada de Seia. Compro 10kg de gelo por 12€ (bem caros). Volto rapidamente para casa e ponho-o logo no mosto dentro de um saco de vindima fechado. Nada a fazer, passam duas, três horas e a temperatura ainda vai em 25°C. Como fazer?

Ai, alguem em casa se lembra de ir perguntar ao café onde é que costumam comprar o gelo. Boa ideia!
Ficamos a saber que se pode comprar gelo a bom preço em casa da peixeira, na aldeia vizinha de São Martinho. São 7 da tarde e la vamos nos a procura da casa da pexeira.

Finalmente encontramos e perguntamos se nos pode vender gelo :
-  “posso sim, quanto quer?”
- “50kg, estou a bater-me com um vinho que esta a gozar comigo dizendo-me que não o consigo por a 20°C
- “Por vinho no gelo??? Nunca vi isso!? Você é engenheiro dos vinhos?”
- “Não, mas gosto”
- “Vamos a isso então, segure ai os sacos.”

Enchemos 4 sacos de vindimas, ato-os, pesamos, 15kg cada um.

- “Quanto é?”
- “Fica por 10€”

Ok tudo bem, pelo preço de 10kg nas bombas de gasolina fiquei com 6 vezes mais...

Voltamos rapidamente a minha mini-adega, e com a ajuda de um amigo, la pomos os sacos no mosto. A meia noite volto a medir a temperatura, finalmente la consegui por o vinho a 20°C!

Domingo de manhã, a temperatura a 19°C e densidade a 1000. A fermentação ainda decorre, ainda se ouve o burburinho e a chama do isqueiro ainda se apaga quando a chego a beira do mosto.

Percebo que esta perto do fim e que tenho de preparar a barrica para a qual vai passar o vinho. Não tenho cuba para efectuar a decantação, tera de ser feita na barrica.


Cubro a dorna com uma manta de plastico para criar uma atmosfera de CO2 por cima do mosto e protege-lo da oxidação.

Vou então encher uns 8 garrafões de 5L ao furo da casa da avo da minha namorada (agua pura da serra, sem o cloro da agua da rede) para poder passar por agua o interior da barrica. 

Volto a casa com os garrafões, ponho a ferver 15L numas panelas, despejo-os dentro da barrica com um funil grande que comprei de proposito. Ponho a rolha na barrica para la ficar dentro o vapor. Abano a barrica nas diversas direções durante um quarto de hora e deixo estar um par de horas. 

Volto mais tarde, despejo a agua, e volto a por agua desta vez fria, abano outro quarto de hora, despejo a agua e volto a repetir a operação. Depois de voltar de despejar, viro a barrica e deixo-a a pingar de cima de uns suportes de madeira. Ficara assim 24h a secar.

No dia seguinte, ao fim do dia, o meu sogro volta de um dia de trabalho e ajuda-me a prensar e passar o vinho. A torneira na dorna esta a entupir e não ha desnivel suficiente entre a barrica e a dorna. Temos de passar o vinho manualmente, jarro a jarro para a barrica. 



Depois montamos a prensa  vertical e passamos o resto para a prensa. 



Depois de prensar desfazemos o bolo e passamos a peliculas semi-secas para sacos de vindima.



Finalmente são 22h e ja so falta limpar tudo. 
Digo ao meu sogro para ir jantar que acabo isto.
Dias longos, intensos, fisicos mas cheios de emoções!

Sinto-me bem, de certa maneira realizado, percebo que gosto mesmo disto!

Em paralelo disto tudo, continuo a seguir as evoluções das maturações das uvas nas vinhas.
As proximas vindimas (ainda serão quatro) estão a chegar!
Mas isso contarei nos proximos episodios!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A poda Guyot - La taille Guyot


Com a tesoura hidraulica é mais facil e mais rapido. O problema é que estas tesouras são carissimas...
Nos so temos tesouras normais, por isso vai ser tudo a força das mãos.
Ja tenho 3 bons podadores para me ajudar, o Ti Zé Rebelo, o João Borges e o meu sogro.
A ver se arranjo pelo menos mais um.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Faltam menos de duas semanas para ir podar

Faltam menos de duas semanas para voltar a Terra Santa, desta vez para podar a vinha que safei da morte.
Vai assim iniciar o terceiro ano/ciclo em que trato dela.

Vou podar ja em Março por querer podar o mais tarde possivel, tentando assim retardar o abrolhamento e assim prevenir as geadas tardias da primavera.

A vinha é podada em Guyot simples, como costuma ser o caso nas vinhas velhas da região.


Este tipo de poda convem melhor a esta vinha, pois preserva-a mais do que por exemplo a poda a Cordon de Royat, o tipo de poda maoiritariamente usada nas vinhas novas em Portugal.

A poda em Guyot não cansa tanto a vinha, ja de si cansada pelo abandono que conheceu. Não se pode esquecer que esteve a beira de morrer e por isso ainda esta de certa maneira em convalescência.

Cêpa podada em Guyot simples

A poda em Guyot consiste em cortar as varas do ano passado e deixar so uma que servira de suporte as lançamentos do novo cilco vegetativo. Pode se deixar eventualmente outra vara mais baixa, caso se pretenda renovar e rebaixar a cêpa.

Na vara que escolhemos, deixamos, consoante os objectivos de produtividade e de qualidade pretendidos, um numero de olhos mais ou menos importante. Cada olho dara nascença, aquando do abrolhamento, as varas que vão dar mais tarde as uvas.

Depois de podar, da-se ao acto da "empa".
A empa consiste em atar a vara que deixamos ao arame mais baixo da estrutura de suporte da vinha.
Permite suporte e protege a vara do vento.

Na região ata-se com rafia, um material natural e bio-degradavel tipo palha. Ha pessoas que utilizam elasticos ou fios de plastico, mas acho mais encanto a rafia, é mais bonito e respeita mais a natureza.

Rafia
Este tipo de poda da mais trabalho do que a poda "moderna", demora mais e é mais dificil técnicamente.
No ano passado eramos 5 a podar, demoramos 3 dias para podar e empar o hectare de vinha.

Mas depois traz mais equilibrio a planta e genera menos lançamentos ladrões. Tem por isso as suas vantagens recompensadoras.

Deixo algumas fotos do ano passado, de antes e de depois de podar.

Antes da poda : é mais ou menos assim que vou encontrar a vinha.



Despida de verdura, com as varas do ano passado um pouco caoticas.


Com a serra sempre a plano de fundo.


Depois da poda, nota-se que a intervenção humana deixa logo uma sensação de ordem.




Os grandes vinhos fazem-se na vinha, é uma grande verdade!