quinta-feira, 22 de março de 2012

A hora da "bucha"

Quem trabalha no campo tem o habito de fazer uma pausa a meio da manhã para descansar um bocado e satisfazer o estomago.


Nos citadinos, com as nossas vidas atormentadas, não temos este habito.



Mas para o pessoal do campo, trata-se de um ritual.
Não o respeitar poderia ser considerado sacrilégio.


As 10 da manhã chega a hora da "bucha"!


Nesse momento tudo serve de mesa improvisada, seja uma pedra, seja um carrinho de mão virado ao contrario...
Ou mesmo o solo, desde que a comida seja pousada num pano. 


Trata-se de um momento de convivio, onde os corpos e as almas procuram reconforto. 


Como não poderia deixar de ser, tambem a nossa poda 2012 teve as suas buchas. 


Trouxe-se o pão, o queijo, o presunto, o chouriço...


E claro esta!
O vinho!
Neste caso branquinho.


Depois, o pessoal la volta ao trabalho, ja com outra alegria.

sábado, 17 de março de 2012

A equipa da poda 2012

Este post serve de homenagem ao pessoal que esteve comigo na poda 2012.

A equipa chegou a ser composta por 9 pessoas.
Assim sendo, a poda e a empa foram mais rapidas, durando apenas 2 dias (vs 3 dias no ano passado, a 5 pessoas).

Vou, de seguida, apresentar os membros da equipa 2012.

Iniciamos a primeira manhã a 5 pessoas

Ti Zé Rebelo, 87 anos de experiência!!

Os irmãos Borges, João e Carlos

O meu sogro e o Ti Zé Rebelo, ao inicio da manhã do primeiro dia

Votre serviteur

Da parte da tarde tivemos "reforços" de peso :)

O meu ti Zé Maria juntou-se aos "artistas"
Ajudando assim a adiantar a poda
O meu primo, Flavio, aka "Sokota"
O meu pai



e o meu tio João Manuel
Trataram os três de apanhar as vides e junta-las fora da vinha
Foi uma equipa bem composta e equilibrada, com os de maior experiência e técnica, "os artistas", a podar e empar e os outros a tratarem das tarefas mais simples (apanhar e evacuar as vides, atar aquando da empa...)

No dia seguinte, o Carlos tinha compromissos e não se pode juntar a nos, ficou assim a equipa reduzida a 8 elementos. No entanto demos bem conta do recado.

Bons momentos!

segunda-feira, 12 de março de 2012

Back to Paris

Estou de volta a Paris depois de uma boa semana dedicada ao meu projecto no sopé da Serra da Estrela.
Ja são momentos que fazem parte do passado, o tempo continua a correr e amanhã la tenho de regressar ao meu emprego, aquele que me permite financiar estas doidices.
Estou cansado e as usual um pouco demoralizado com o regresso. 

Por enquanto não me vou alongar muito em comentarios, farei-o nos proximos tempos. 
Apenas vou deixar algumas fotos que, de certa forma, resumem bem estes dias de inicio de Março.

Tempo das mimosas

A poda com a minha "dream team"
Muita vida neste fim de inverno, com sabor de primavera adiantada


A prova de vinhos de pequenos lavradores, com o copo tipico, cheio, "a rasar"
A procura de solos minerais

Solo e luz sempre presentes nestas "férias"

A passagem a limpo dos vinhos de 2010

Até breve!


quinta-feira, 1 de março de 2012

To do list

Esta quase a chegar a hora de arrancar de férias.
Ja so falta um dia de trabalho e sabado de manhã la vamos nos a Portugal.

Vai ser uma semana intensa, a to do list quase que assusta...

Na vinha ha que podar e empar.



Na parte da adega,  provar os vinhos...


...Passar a limpo os 2011...



Provar as experiencias de blends feitos em dezembro e planificar o futuro dos 2010.



Tambem começar a organizar a ou as vindimas e vinificações de 2012.

Ainda ha mais algumas tarefas de ordem diversas mas vou poupa-los.

Sera que uma semana de "férias" vai chegar?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Episodio 8 : a minha primeira vinificação


Durante a noite de quarta para quinta arranca a fermentação do Jaen.

De manhã cedo, faço as medidas do costume. A temperatura continua a 24°C, mas a densidade ja começou a baixar (1095) indicando que algum açucar ja se transformou em alcool.

Trabalho com as mocas para arejar o mosto e ajudar a difusão dos compostos fenolicos. E um trabalho que realizo varias vezes por dia.



Chego a Pellada contente e aviso o pessoal que a FMA ja começou.

A noite volto a medir e constato uma evolução. A densidade ja baixou para 1070, fico surpreendido pela rapidez, meço a temperatura e vejo 27°C
Penso que esta bem que tenho de ter cuidado para que de noite não se aproxime dos 30°C
Por prevenção ponho no mosto um garrafão de agua congelada que tinha preparado na arca do meu sogro.

Na manhã seguinte, volto a arejar e medir as variaveis. A densidade baixou durante a noite para 1055 e a temperatura continuou a subir estando agora nos 29°C. Fico preocupado com a temperatura e ponho mais três garrafões de gelo no mosto.



Chego a Pellada e explico o sucedido: “a densidade esta a baixar rapidamente, parece um formula 1”, “estou preocupado com a temperatura, ja vai nos 29°C”. 
Respondem-me para não me preocupar, que é normal e que até é bom fermentar no inicio a temperaturas mais altas, perdendo assim compostos menos bons e aromas precoces que são efemeros e que não interessam. “Ok tudo bem”. Como nos outros dias, volto la de vez em quando para trabalhar com a moca.

A noite volto a medir, a densidade ja esta a 1030 e a temperatura baixou de 1°C.

Dia seguinte de manhã, sabado, la vou eu outra vez medir e realizar os trabalhos com cuidado e como sempre limpando tudo depois de usar e limpando cada gota que caia no chão, pois a higiène é fundamental para prevenir contaminações. 
A densidade ja vai em 1012, ou seja ja estamos perto do fim e a temperatura ainda esta nos 28°C
Fico preocupado porque os garrafões que pus na arca na vespera ainda não congelaram completamente. Apercebo-me que vou ter de preparar muito mais gelo para as fermentações seguintes.

Depois do almoço vou até a adega da Pellada, não vejo ninguem, volto a sair e cruzo-me com a Maria que me diz “anda a casa tomar o café estamos a acabar de almoçar”. “Ok”. 
Tomando o café explico o meu problema. O A. Castro diz-me que nesta fase, tem de se por o mosto a 20°C, pois são os aromas desta fase que importa guardar.

Ok la vou eu a procura de gelo.
A primeira ideia foi de ir as bombas de gasolina a entrada de Seia. Compro 10kg de gelo por 12€ (bem caros). Volto rapidamente para casa e ponho-o logo no mosto dentro de um saco de vindima fechado. Nada a fazer, passam duas, três horas e a temperatura ainda vai em 25°C. Como fazer?

Ai, alguem em casa se lembra de ir perguntar ao café onde é que costumam comprar o gelo. Boa ideia!
Ficamos a saber que se pode comprar gelo a bom preço em casa da peixeira, na aldeia vizinha de São Martinho. São 7 da tarde e la vamos nos a procura da casa da pexeira.

Finalmente encontramos e perguntamos se nos pode vender gelo :
-  “posso sim, quanto quer?”
- “50kg, estou a bater-me com um vinho que esta a gozar comigo dizendo-me que não o consigo por a 20°C
- “Por vinho no gelo??? Nunca vi isso!? Você é engenheiro dos vinhos?”
- “Não, mas gosto”
- “Vamos a isso então, segure ai os sacos.”

Enchemos 4 sacos de vindimas, ato-os, pesamos, 15kg cada um.

- “Quanto é?”
- “Fica por 10€”

Ok tudo bem, pelo preço de 10kg nas bombas de gasolina fiquei com 6 vezes mais...

Voltamos rapidamente a minha mini-adega, e com a ajuda de um amigo, la pomos os sacos no mosto. A meia noite volto a medir a temperatura, finalmente la consegui por o vinho a 20°C!

Domingo de manhã, a temperatura a 19°C e densidade a 1000. A fermentação ainda decorre, ainda se ouve o burburinho e a chama do isqueiro ainda se apaga quando a chego a beira do mosto.

Percebo que esta perto do fim e que tenho de preparar a barrica para a qual vai passar o vinho. Não tenho cuba para efectuar a decantação, tera de ser feita na barrica.


Cubro a dorna com uma manta de plastico para criar uma atmosfera de CO2 por cima do mosto e protege-lo da oxidação.

Vou então encher uns 8 garrafões de 5L ao furo da casa da avo da minha namorada (agua pura da serra, sem o cloro da agua da rede) para poder passar por agua o interior da barrica. 

Volto a casa com os garrafões, ponho a ferver 15L numas panelas, despejo-os dentro da barrica com um funil grande que comprei de proposito. Ponho a rolha na barrica para la ficar dentro o vapor. Abano a barrica nas diversas direções durante um quarto de hora e deixo estar um par de horas. 

Volto mais tarde, despejo a agua, e volto a por agua desta vez fria, abano outro quarto de hora, despejo a agua e volto a repetir a operação. Depois de voltar de despejar, viro a barrica e deixo-a a pingar de cima de uns suportes de madeira. Ficara assim 24h a secar.

No dia seguinte, ao fim do dia, o meu sogro volta de um dia de trabalho e ajuda-me a prensar e passar o vinho. A torneira na dorna esta a entupir e não ha desnivel suficiente entre a barrica e a dorna. Temos de passar o vinho manualmente, jarro a jarro para a barrica. 



Depois montamos a prensa  vertical e passamos o resto para a prensa. 



Depois de prensar desfazemos o bolo e passamos a peliculas semi-secas para sacos de vindima.



Finalmente são 22h e ja so falta limpar tudo. 
Digo ao meu sogro para ir jantar que acabo isto.
Dias longos, intensos, fisicos mas cheios de emoções!

Sinto-me bem, de certa maneira realizado, percebo que gosto mesmo disto!

Em paralelo disto tudo, continuo a seguir as evoluções das maturações das uvas nas vinhas.
As proximas vindimas (ainda serão quatro) estão a chegar!
Mas isso contarei nos proximos episodios!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A poda Guyot - La taille Guyot


Com a tesoura hidraulica é mais facil e mais rapido. O problema é que estas tesouras são carissimas...
Nos so temos tesouras normais, por isso vai ser tudo a força das mãos.
Ja tenho 3 bons podadores para me ajudar, o Ti Zé Rebelo, o João Borges e o meu sogro.
A ver se arranjo pelo menos mais um.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Faltam menos de duas semanas para ir podar

Faltam menos de duas semanas para voltar a Terra Santa, desta vez para podar a vinha que safei da morte.
Vai assim iniciar o terceiro ano/ciclo em que trato dela.

Vou podar ja em Março por querer podar o mais tarde possivel, tentando assim retardar o abrolhamento e assim prevenir as geadas tardias da primavera.

A vinha é podada em Guyot simples, como costuma ser o caso nas vinhas velhas da região.


Este tipo de poda convem melhor a esta vinha, pois preserva-a mais do que por exemplo a poda a Cordon de Royat, o tipo de poda maoiritariamente usada nas vinhas novas em Portugal.

A poda em Guyot não cansa tanto a vinha, ja de si cansada pelo abandono que conheceu. Não se pode esquecer que esteve a beira de morrer e por isso ainda esta de certa maneira em convalescência.

Cêpa podada em Guyot simples

A poda em Guyot consiste em cortar as varas do ano passado e deixar so uma que servira de suporte as lançamentos do novo cilco vegetativo. Pode se deixar eventualmente outra vara mais baixa, caso se pretenda renovar e rebaixar a cêpa.

Na vara que escolhemos, deixamos, consoante os objectivos de produtividade e de qualidade pretendidos, um numero de olhos mais ou menos importante. Cada olho dara nascença, aquando do abrolhamento, as varas que vão dar mais tarde as uvas.

Depois de podar, da-se ao acto da "empa".
A empa consiste em atar a vara que deixamos ao arame mais baixo da estrutura de suporte da vinha.
Permite suporte e protege a vara do vento.

Na região ata-se com rafia, um material natural e bio-degradavel tipo palha. Ha pessoas que utilizam elasticos ou fios de plastico, mas acho mais encanto a rafia, é mais bonito e respeita mais a natureza.

Rafia
Este tipo de poda da mais trabalho do que a poda "moderna", demora mais e é mais dificil técnicamente.
No ano passado eramos 5 a podar, demoramos 3 dias para podar e empar o hectare de vinha.

Mas depois traz mais equilibrio a planta e genera menos lançamentos ladrões. Tem por isso as suas vantagens recompensadoras.

Deixo algumas fotos do ano passado, de antes e de depois de podar.

Antes da poda : é mais ou menos assim que vou encontrar a vinha.



Despida de verdura, com as varas do ano passado um pouco caoticas.


Com a serra sempre a plano de fundo.


Depois da poda, nota-se que a intervenção humana deixa logo uma sensação de ordem.




Os grandes vinhos fazem-se na vinha, é uma grande verdade!