sábado, 9 de março de 2013

Poda 2013

Como diria o Pingus Vinicus, as vezes mais valem as imagem do que muitas palavras. 
Aqui ficam algumas fotos da poda 2013 da vinha que salvei, sem grandes textos a acompanhar.

Antes de se iniciar a poda, existe na vinha uma sensação de desordem, um lado selvagem.


Depois intervem o Homem e fica tudo mais ordenado, menos inquietante.



A equipa deste ano estava bem composta, com gente competente, gente da terra e disposta a ajudar a fazer um trabalho como deve ser.


Como não podia deixar de ser quando se quer anticipar e prevenir eventuais males, as vides foram logo apanhadas e queimadas.


A vinha ficou assim a espera da proxima intervenção humana, que consistera em trabalhar o solo.


Intervenção que a hora em que estou a escrever este post, ja começou.

terça-feira, 5 de março de 2013

A semana maratona

Estou de regresso a Paris depois de uma semana intensa na santa terra.


Foi uma semana que passou muito rapido e que me deixou exausto, pois foi uma maratona, sempre a correr contra o tempo.
Montes de assuntos para tratar relacionados com o meu projecto vitivinicola, a varios niveis.
Tinha preparado uma lista de mais de vinte items a resolver... 

Sabia que, como sempre, não iria conseguir fazer tudo. Mesmo assim consegui fazer mais do que pensava. 

Para tal tive de delegar parte do trabalho. Por exemplo um dos temas a tratar era o da poda da vinha que salvei. 

Tive la 7 pessoas a podar e a empar durante dois dias. Pessoalmente no primeiro dia so la passei meia hora e no segundo so la estive a tarde. Não é que não goste de podar, pelo contrario adoro isso. Mas se queria tratar tudo o que tinha para tratar nesta semana, tinha mesmo de ser assim este ano...

Acabamos tambem de empar a vinha centenaria.
A proposito, tinha-vos contado num post anterior que encontramos essa vinha mal tratada nas podas anteriores, cêpas cansadas e varas muito finas. Por isso, durante esta semana tambem tive de organizar a fertilização da terra, pois as videiras estavam esfomeadas. Para tal tive de andar a procura de alguem que pudesse abrir a terra com uma cavalo.


Depois de encontrar a pessoa certa e de combinar tudo fui a procura do estrume organico, organizar o seu transporte e avisar o pessoal. As diferentes tarefas foram assim planificadas e tudo decorreu na boa disposição.


A vinha pode assim alimentar-se, a ver se ganha outra vitalidade nesta e nas proximas colheitas. Alem do estrume a pouca carga deixada devera ajudar.

Um dos varios outros temas de que tratei nestes dias foi a prepração do futuro, em particular a pesquiza de mais "crus" do Dão. O minimo que posso dizer é que a pesca foi boa. 


Comprometi-me a tratar de mais uma vinha e tenhoa mais umas a espera de experiências.
Estive a contar ao todo tenho 14 vinhas identificadas.


 Embora o Dão mereça que o faça, falta agora é tempo e dinheiro para transformar isto em garrafas nas vossas mesas.

Nos proximos posts falarei um pouco mais em pormenor destes diferentes temas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Negro Mouro

Nos tempos que vivemos, onde a standardização acaba aos poucos com a diversidade, importa tentar preservar o patrimonio ampelografico de que dispomos em Portugal.
Pessoalmente acredito que alem da questão ecologica, esta preservação podera se tornar num grande trunfo para o futuro da vitivinicultura nacional.

Embora muitos concordem com isto nas palavras, depois nos actos nem sempre isso se reflete.
Um dos meus objectivos é contribuir a essa preservação.

Das castas presentes na vinha velha da qual provem o meu 2011, talvez a mais esquecida de todas seja o Negro Mouro.

"Negro Mouro" é o nome regional pelo qual era conhecida no Dão a casta mais conhecida a nivel nacional pelo nome de "Camarate".

Na vinha reconhece-se principalmente pela folha algo rustica. Não é uma casta facil por ser tardia e sensivel.

Provavelmente alguns de vocês ja a provaram sem o saber, pois é uma casta muito presente na vinha velha da Quinta da Pellada, cujo vinho entra no lote do vinho do mesmo nome.

Não resisto a tentação de transcrever uma frase tirada do Grande Livro das Castas (Jorge Böhm), acerca desta casta :
"Embora se trate duma casta com grande tradição historica, reconhecemos tratar-se de uma variedade que actualmente não produz vinhos ao gosto do mercado."

Tirem as conclusões que quiserem!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O rotulo do 2011 - L'étiquette du 2011

Depois de longas semanas de trabalho com o meu amigo Antonio Rodrigues, tenho o prazer de vos apresentar aquele que sera em principio o rotulo do meu vinho de 2011.

Après de longues semaines de travail avec mon ami Antonio Rodrigues, j'ai le plaisir de vous présenter celle qui sera en principe l'étiquette de mon vin de 2011.


Peço-vos que partilhem a vossa opinião. Não se envergonhem, digam la a vossa justiça!

A vos commentaires!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O 2011 no daowinelover meeting

O #daowinelover meeting foi tambem especial para mim por ser uma oportunidade para dar a provar amostras do meu vinho de 2011 e assim ter algum feedback, recolher opiniões.

Foto de Jorge Filipe Nunes

O balanço foi francamente positivo.
As pessoas demostraram curiosidade, provaram e partilharam comigo as suas impressões, quer seja na hora, quer seja mais tarde por mensagens via facebook.
As pessoas queriam perceber a origem do vinho, quais as castas e os principios nele contido.

Escrevi um texto destinado ao contra-rotulo, que acho que sintetiza bem as respostas a estas perguntas.
Aqui vai : 
Este vinho nasce numa vinha velha salva do abandono, onde se destacam castas autóctones, quase esquecidas, como a Tinta Pinheira, o Negro Mouro e a Tinta Amarela. 
Foi vinificado com o objectivo de expressar a pureza do "terroir” granítico da Serra da Estrela, tal como seria no tempo dos nossos avós.

A todos um grande bem haja pelos comentarios! 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A poda da vinha centenaria

Na quinta-feira 24 de Janeiro, mal cheguei a terra santa, aproveitei logo a primeira tarde para ir podar.
Fomos três pessoas, o meu sogro, o Ti Zé Rebelo e eu. No dia seguinte tb foi o meu primo Flavio "Sokota" para apanhar as vides.

Foram bons momentos, que aqui vou relatar.


As cêpas apresentavam formas que têm mais a ver com o contorcionismo do que com os standards da viticultura actual.



Começamos pela parte de baixo.


E fomos subindo, levando duas carreiras de cada vez.


Eu alternava entre a carreira do meu sogro e do Ti Zé Rebelo.


As varas iam ficando em pequenos montes carreira sim, carreira não.


As varas foram depois apanhadas e queimadas pelo meu primo Flavio aka "Sokota".



Pelas varas conseguiamos reconhecer algumas castas brancas e tintas.


Nas brancas reconhecemos o Bical, conhecido localmente pelo nome de "Borrado das Moscas".


Nas tintas reconhecemos bastantes cêpas de Jaen e de Baga.


La mais para a frente, despois do abrolhamento, quando começarem a aparecer as folhas, ja se podera identificar mais castas pela forma da folha.


Encontramos videiras muito cansadas. Notava-se que pelo menos na poda do ano anterior houve um claro abuso a nivel da carga deixada. Não era rara a vez em que encontramos videira com 16 ou 20 varas, um exagero para cêpas tão antigas. Não temos duvidas que a continuar assim, em meia duzia de anos morriam todas...


Encontravamos assim, principalmente na parte de baixo, varas muito finas e curtas, com muito pouco vigor. A vinha estava cansada e esfomeada.
Para resolver isto tivemos muita vez de apenas deixas três olhos, a ver se a vinha ganha vigor este ano.
Por isso, a colheita sera pequena este ano, mas a situação que encontramos assim o obriga. Pelo menos se formos sérios a salvar a vinha.


Podar é relaxante!
Pelo menos para mim, que vivo numa grande cidade, é uma actividade que me permite evacuar o stress acumulado. E mesmo muito bom, actividade manual mas ao mesmo tempo cerebral, tecnica, a levar-nos a tomar varias decisões, pois cada cêpa é um caso a resolver.



 Longe da cidade, aqui so se houvem os passaros e o vento. Quando se tem consciencia disto, o momento presente torna-se jubilatorio.
Os amadores do Yoga estão avisados, têm aqui uma boa alternativa!


 No cimo da vinha encontra-seuma tradicional palheira ;)


O Ti Zé Rebelo, com 88 anos de experiência, la ia podando cêpas ainda mais idosas do que ele.
"Este sitio é muito bom, ha poucas vinhas assim tão barreirentas" dizia-lhe referindo-se ao declive, solo e orientação da vinha.
"Pena é a vinha estar no estado em que esta", "vais ter pouco vinho"...


Ainda recebemos uma visita :)


A visita de uma pessoa sem a qual nada disto seria possivel.


Agora a proxima fase sera estrumar a vinha. Ela esta esfomeada, bem precisa para reforçar o vigor.
Para tal tera de vir alguem que tenha um cavalo para abrir a terra, pois as carreiras são estreitas, não permitem a entrada de tractor. Alias mesmo com o cavalo não sera facil, pois o espaço para virar tambem é curto. Vai ser engraçado!

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Le Dão : le secret le mieux gardé de la vieille Europe viticole

Le samedi 26 janvier 2013 restera dans ma mémoire.


J'avais pris quelques jours pour retourner dans la belle région portugaise où j'ai mes racines, la région montagneuse de la Serra da Estrela, plus haut sommet portugais. Région où je réalise mes expériences viticoles, connue sous l'AOC Dão.

Je profitais de cette petite escapade pour aller tailler une vigne centenaire que je viens de louer et pour me rendre à un évènement, le Daowinelover meeting, organisé dans la région par des amis facebookiens, amants de la région et de ses vins.
L'objectif était simple, rassembler le plus d'amateurs possibles, dans l'objectif de vivre et fêter le Dão.
Initiative inédite, partie de deux utopistes et qui comme moi adorent cette région et qui souhaitent la remettre à la place qui était la sienne, au sommet de ce que les terroirs portugais peuvent offrir aux amateurs éclairés.

Inédite car organisée, non pas par des professionnels du vin ou de la communication, mais simplement par de simples oenophiles amoureux du Dão. Inédite car née via Facebook.

Aux côtés de Rui Miguel aka Pingus Vinicus, l'un des organisateurs du Daowinelover  meeting
La condition d'accès était simple, venir avec une bouteille de Dão.

Et le moins que l'on puisse dire c'est que la mayonnaise a pris.
Environ 150 personnes se sont ainsi réunies, venant des quatre coins du pays pour communier leur passion.
Et fait non pas des moindres, ils ont réussi à réunir la grande majorité des producteurs de la région, pourtant si minée par le manque de collaboration.

Nous nous sommes ainsi tous retrouvés au domaine Casa da Passarella, dont l'hospitalité s'est révélée exemplaire et où nous avons passé une belle journée, dans la bonne humeur et où régnait une atmosphère de partage.

Comme si cela ne suffisait pas, ils nous avaient réservé une grosse, grosse surprise. Deux jours avant l'évènement, un post annonçait sur facebook que l'évènement comprendrait une dégustation des mythiques vins du CEV Dão (Centre d'Etudes Vitivinicole du Dão).

Quand j'ai lu ça, l’excitation était au top! On aurait dit un puceau juste avant sa première fois :)

Comme la plupart d'entre nous, cela faisait si longtemps que j'en entendais parler et je n'en avais jamais goûté une goute... Il s'agit de vins mythiques, expérimentaux, qui remontent aux années soixante et qui constituent les plus beaux exemples de grands vins de garde que peut offrir le Dão et le Portugal.

Enfin le moment était arrivé!


Nous avons ainsi pu déguster 3 blancs et 4 rouges.

1964, 1974 et 1992 en blanc

1971, 1987, 1996 et 1998 en rouge






Inutile de chercher à en décrire les arômes et les saveurs, telle était la complexité.
En bouche, c'est comme si on se prenait des séries de vagues de saveurs. Indescriptible!
Peut-être le plus juste serait de dire que celà sentait le Dão, tout simplement.

1964
Au delà de cette complexité, ce qui m'impressionnait le plus c'était la vivacité de ces vins, leur fougue, cette jeunesse.



Je goûtais des vins blancs âgés de 49 ans, 39 ans... Un rouge de 41 ans...
Et quelle jeunesse!
Pas l'ombre d'une ride!
Nous nous demandions jusqu'où iront-ils? Impossible de répondre...



Même les plus sceptiques devaient se rendre à l'évidence, il n'y avait aucun doute, la région du Dão est capable de produire parmi les plus grands vins de garde au monde.

Après une telle expérience tout devient relatif!

Un grand "Obrigado" aux organisateurs pour cette mémorable journée!

domingo, 20 de janeiro de 2013

Vinha centenaria

Continuando a desvendar os projectos que tenho para 2013, vou neste post focar-me num dos principais e em que deposito grandes expectativas.

Quinta-feira volto a terra santa, por uns dias, com dois objectivos :
- podar uma vinha velha que aluguei a partir deste ano
- participar no proximo sabado no evento #dãowinelovermeeting.

Depois, no Domingo voltarei a realidade parisiense.

Sera a primeira vez que podo esta vinha.
Trata-se de uma vinha muito antiga, com mais de 100 anos.


O dono é um senhor com 90 anos que a erdou do sogro quando era novo. Segundo diz ele, ja naquela altura a vinha era velha, tendo a volta de 50/60 anos naquela altura.
E por isso um caso raro, um testemunho de tempos muito antigos, uma amostra do Dão do tempo da criação da denominação de origem, ha cem anos atras.


Conheci o dono vai para 3 anos, a vinha é a menina dos olhos dele e andava preocupado com o que aconteria quando ja não teria forças para a cultivar. Trabalho muito nela. Chegou a escavar a luz da lua.


Desde o inicio lhe disse "não se preocupe! Se você confiar em mim, a vinha não morrera."
Ficou desde essa altura combinado que quando ele ja não puder, começarei eu a tratar dela, via um contrato de arrendamento.

Em setembro quando voltei para vindimar a colheita de 2012, fui la ter com o senhor e chegamos a conclusão que esse momento tinha chegado. Sera por isso agora a primeira vez que vou começar a podar esta vinha. Vou começar a conhecer esta magnifica vinha intimamente.


A vinha encontra-se numa encosta virada para a Serra de Estrela, alias esta mesmo na ultima encosta frente a Serra.

A vinha é pequena, tem a volta de 2000 m². Por isso a produção devera ser confidential, talvez a volta de 1500 garrafas ou algo do genero.


O solo é obviamente de origem granitica e muito pobre.


Mal la nasce uma erva.
Fica uma pessoa a pensar como as vinhas se conseguiram desenvolver e atingir tal longevidade num ambiente tão hostil... São mesmo plantas a parte!


As castas vou aprender a conhecê-las. Neste momento é o que menos me interessa.
O principal neste caso, é o local e a idade das cêpas, sera um autêntico vinho de terroir, que expressa um local e uma altura no tempo.

Sei no entanto que se trata de uma vinha com mistura de castas tintas e brancas, como costuma ser nas vinhas antigas da região. Sei tambem que nas tintas se encontra Jaen.
Agora ao podar, pelas varas talvez consigamos com o meu sogro e o Ti Zé Rebelo reconhecer algumas castas pelas varas.



O vinho tem sido feito pelo dono, sem grandes condições, sempre em lagar, com o engaço e com as uvas tintas misturadas com as brancas. Cada vez que provo o vinho dele, revela-se espectacular!
Mesmo em copo simples, sobressaia o granito, a mineralidade, por detras de fruta vermelha fresca e de um conjunto de flores. Um vinho fresco e elegante, que traduz no copo aquilo que era o Dão de ha cem anos!
Um vinho que nos faz viagar no tempo.



Cabe-me agora a responsabilidade de não estragar.
Ainda não sei se farei o tinto a parte do branco, ou se continuarei  misturar tudo. Alias esta duvida provavelmente so sera defeita a ultima da hora, quando formos vindimar. Mas a ideia de misturar tudo atrai-me, pois o vinho é tão bom!

Ainda me recordo das palavras de um enologo duriense quando o levei a ver esta vinha : "Antonio, esta é provavelmente a melhor vinha do Dão". A responsabilidade é por isso grande, mas não assusta pois conto com a ajuda da mãe natureza, com o potencial da vinha e com o nosso empenho para levar a boca dos enofilos este pedaço de Historia do vinho português.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Pioneiros

Esta tarde de domingo foi uma bela tarde, encontrei-me em Paris com um casal produtor de vinhos do Dão. Gente que aprecio particularmente, a Sara e o Antonio, da Casa de Mouraz.

Uma das coisas que mais me marca no mundo dos vinhos, são as amizades que ao longo do tempo se vão desenvolvendo.

Tenho um enorme respeito pelos varios produtores que tenho conhecido, pela obra realizada, pela capacidade que tiveram em desenvolver e em concretizar os seus projectos.

Tenho encontrado bellissimas pessoas neste caminho.
A Sara e o Antonio são sem duvida umas delas.
Pessoas autenticas, ao mesmo tempo cultas e humildes.



Mudaram de vida ha uns anos para concretizarem o sonho de produzir vinho no Dão em modo biologico e biodinamico.


Autenticos pioneiros da biodinamica no Dão, passaram por varias dificuldades, por muitos obstaculos para conseguirem concretizar os seus sonhos. 




O Dão merece ter gente desta!
A vida tambem fica mais bela quando existem pessoas destas a nossa volta.

Passei de facto um bela tarde na vossa companhia.
Bem haja Sara e Antonio!

Fotos retiradas do blog http://casademouraz.blogspot.fr