sábado, 15 de junho de 2013

Depois da geada

Como tinha contado anteriormente, este ano tinha sido castigado pela geada numa das vinhas.
Cheguei a temer uma perda de produção de 90%.

Na semana a seguir a geada de fim de abril, foram removidos os talos queimados, para facilitar e acelerar o nascimento de novos lançamentos.
Felizmente a vinha tem recuperado bem.

A parte de cima foi a menos afectada pela geada, ai praticamente não se queimou.


A parte de baixo é que se queimou mais.


Muitas varas das cepas de baixo ficaram so com um ou dois lançamentos, o resto queimou-se.

Mas ainda tive alguma sorte devido ao tipo de poda.
Na poda Guyot, alem da vara escolhida para a produção do ano, deixamos, quando possivel, uma espera mais abaixo na cepa com dois olhos, de maneira a criar vara para a produção do ano a seguir e poder renovar e rebaixar a videira. Ora nessa espera, os olhos não se queimaram e deram geralmente lugar a duas varas, cada uma com um ou dois cachos.

Nesta videira, vemos a esquerda os lançamentos das esperas, a direita vemos um lançamento da vara principalmente que escapou a geada, e no meio dois lançamentos bébés, nascidos depois de remover os lançamentos iniciais queimados.

Sendo assim, de tudo correr bem, ainda consiguirei ter alguma produção, talvez 4 ou 5 cachos por cêpa. A ver vamos!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O quadro impressionista e o trabalho dos solos

Quando cheguei a "Terra Santa", em finais de Maio, encontrei a vinha salva com a vegetação do solo bem desenvolvida, de certa forma selvagem!


Parecia um quadro impressionista...


O artista, a natureza, lembrou-se de juntar ali aquelas cores todas.


Apesar de ter passado a maquina de martelos na altura da poda, em finais de fevereiro, para cortar a erva, a chuva abundante desde então, veio ajudar o artista a recompor o quadro a sua maneira...


Eu, tal um terro(i)rista la tive de escangalhar o trabalho do artista, passando desta vez a grade de discos.


A grade de disco para ter um efeito dois em um :
- cortar as ervas para que elas não entrem em competição com as cêpas na procura de agua durante o verão que se avizinha.
- arrejar os solos, para facilitar a entrada de agua e de ar nos mesmos.

E assim! A mão do homem tambem conta!

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A floração, o Jaen e a Serra da Estrela

Ficam aqui algumas fotos que ilustram o estado fenologico das videiras da vinha centenaria na semana passada, ou seja a ultima semana de Maio 2013. 


A floração esta ai a bater a porta!


Durante a espoldra deu para começar a reconhecer castas.


Alem da Baga, da Tinta Pinheira e do Bical (aka Borrado das Moscas), ficamos com a ideia que a casta mais presente é a Jaen, talvez uns 40% do encepamento.


Ali, no sopé da Serra da Estrela, o Jaen sente-se em casa! 


Gosta destes solos graniticos, arenosos, destas altitudes...
E nos tambem gostamos dela!

terça-feira, 4 de junho de 2013

De regresso da terra do granito


Regressei a Paris, a vida real, depois de uma semana por terras do Dão Serrano a tratar do meu projecto.

Os melhores momentos foram passados na vinha, era tempo de espoldra, operação em verde que considero das mais importantes e de que falarei num proximo post.

A procura dos crus continuou, as ideias não param, faltam são as condições para concretiza-las. Vai se fazendo o que se pode.

Foi tempo tambem de lutar contra os obstaculos, procurar soluções num pais em que teimam a complicar o que poderia ser simples e bom para todos. O lema continua por isso a ser o "remar, remar"!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Remar, remar!

Estes dias têm sido intensos.
Bastantes tarefas realizadas.

Os lançamentos queimados foram removidos na quinta-feira da semana passada, no quinto dia a seguir aquela noite de geada.
Na quinta-feira ja se via muito melhor o que estava ou não queimado do que na segunda, o que facilitou a tomada de decisão e o trabalho.
Segundo o meu sogro, no global foram removidos cerca de 60% dos lançamentos.
A parte de cima da vinha estava menos afectada, ai eram cerca de 20% de lançamentos afectados.
Na parte de baixo os estragos eram muito maiores, havendos partes completamente queimadas.

Depois deste trabalho feito, parece que a vinha tem reagido bem nos ultimos dias.

Foto do inicio de Maio 2012
Nesta e nas outras vinhas tambem foi aplicado algum enxofre em po, para prevenir oidio, mas tambem para aquecer um pouco a vegetação e puxar por ela.

Alem disso na ultima vinha que comecei a tratar este ano, tambem capinamos, cortamos a erva que havia com a maquina a fio que nos emprestaram na Pellada.

Varias tarefas que foi preciso organizar a distancia.
O meu sogro tem sido formidavel na ajuda que me tem dado na realização destas tarefas, tenho sorte de poder contar com ele.
No vinho como em tudo, sozinhos não somos nada!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Maldita geada!

O que vinha a temer confirmou-se. 
Uma forte queda de temperatura trouxe com ela neve na serra e geada na noite de sabado para domingo. 

O balanço é pesado.

A vinha que salvei queimou-se muito, muito mesmo. Esta vinha esta num local frio e por isso sensivel as geadas tardias. Ja antes de tomar conta dela estava consciente deste risco. Assumi-o, pois procuro ali exacerbar a frescura caracteristica do local. So que nos anos mais duros, a cacetada é violenta... Fiz o que me era possivel para prevenir este tipo de acontecimentos, realizando as medidas culturais adequadas. Podei tarde para atrasar o abrolhamento e removi as ervas debaixo das linhas. Mas mesmo assim não me livrei este ano...
E dificil avaliar com precisão os estragos. Segundo as diferentes opiniões de quem la foi ver entre 70 a 90% dos lançamentos ficaram queimados... Ou seja praticamente toda a produção ficou comprometida.

Este ultimos dias tiveram por isso um sabor amargo, com algum desanimo a mistura.
Agora, como dizem os jogadores de futebol no flash interview a seguir a uma derrota, ha que levantar a cabeça. O diagnostico feito, agora é momento de agir para tornar o quadro menos negro.
Ja esta semana, serão retirados os lançamentos queimadas, ficando so o olho por abrolhar na base do mesmo, assim como os lançamentos que escaparam. Esta medida devera permitir um novo abrolhamento mais rapidamente. A produção sera assim bem menor em quantidade, mas talvez ainda se consiga fazer pouco e bom. Ha que não baixar os braços.

Das duas outras vinhas de que trato chegam noticias mais positivas. 
Os locais e as suas caracteristicas são diferentes, menos expostos a este tipo de riscos.
A vinha centenaria não apanhou nenhuma geada, felizmente. 
Na outra vinha que comecei este ano a tratar, tambem não houve estragos de maoir. Na parte de cima, onde estão as cepas tintas, não apanhou nada. Na parte de baixo, onde esta o branco ai sim apanhou um pouco, mas mesmo assim nada de maior, pois nessa parte o abrolhamento estava mais atrasado.

Assim sendo, sempre devera haver algum vinho em 2013.

Em principio, segundo as previsões meteorologicas, o pior ja passou, é provavel que ja não haja mais geadas tardias neste inicio de ciclo vegetativo.

Desde que iniciei esta aventura em 2010, não houve dois anos iguais, todos com as suas dificuldades e virtudes, cada um a por a prova a nossa capacidade de adaptação. 
A viticultura no Dão, principalmente por razões climaticas, não é nada facil, é exigente, puxa por nos!

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Ja ha abrolhamento!

Com esta primeira semana de bom tempo, veio o abrolhamento nas vinhas de que trato.

Estando a distância, não o pude presenciar. A confirmação veio do meu sogro que la foi hoje dar uma volta pelas três vinhas.

A vinha centenaria é das três, a mais adiantada. Alem do local, penso que isso se deve tambem ao facto de a ter podado um mês antes das duas outras.

Agora é que vai começar o stress de ter de andar continuamente a anticipar as condições meteorologicas para tomar decisões sobre as medidas a tomar e a organizar, sempre a distância...

Ainda falta um mês para voltar a vê-las ao vivo. Nessa altura tenciono realizar trabalhos em verde de desloadromento.

Até la vai ser cruzar os dedos para que as condições meteorologicas sejam favoraveis e principalmente que não venha nenhuma geada tardia deitar tudo por agua abaixo logo no inicio...

sábado, 13 de abril de 2013

Finalmente a Primavera!

Finalmente!
Depois de tanta chuva, parece que a Primavera chegou!


E provavel agora que o abrolhamento chegue nos proximos dias.
Ai vem mais um ciclo vegetativo, com as suas especificidades, as suas alegrias e as suas dores de cabeça.
Vamos a isso!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Inicio de 2013 : chuva e mais chuva!

Ja la vai praticamente um mês de chuva continua, depois de um inverno bastante chuvoso. E pelas previsões,  a chuva esta para durar...


Depois de um inverno 2011/2012 seco como nunca visto nos ultimos 80 anos, a natureza mostra-se disposta este ano a reequilibrar a balança.

Veremos o impacto sobre o abrolhamento e o inicio do ciclo vegetativo.
Por mim ja chegava de chuva. Mas nestas coisas não mando nada...

domingo, 24 de março de 2013

Mais uma experiência em 2013

Aproveitei a semana passada no sopé da Serra da Estrela em finais de Fevereiro para continuar a pesquizar e identificar parcelas de vinha com potencial.


Num desses dias voltei a pesquizar uma zona que aprecio particularmente e onde se encontram varias vinhas muito interessantes, principalmente pela qualidade do local. 

Encarrei assim com uma vinha ainda por podar, no meio de varias parcelas ja podadas. Naquela altura do ano, a poda ou ja foi feita ou esta a acabar. Gostei do sitio, do solo em particular, muito mineral e com desnivel. Alem disso a exposição tem um poente bom.



Voltei la uns dias mais tarde e a vinha continuava por podar... Estranho!

Era fim de tarde, o sol ja estava baixo e reparo que pessoal estava a acabar de podar uma vinha mais abaixo. Vou ter com eles. Pergunto se sabem a quem pertence a vinha.

Explicam-me que o dono ja não a vai podar mais, que a vai deixar morrer...
Indicam-me o nome e a morada do dono, para ir falar com ele. La vou eu.


Chego a povoação la encontro a casa e o dono, uma pessoa ja com uns 60 e tal anos.
Apresento-me, explico-lhe que vi a vinha dele e pergunto-lhe porque ja não a quer podar mais.
Responde-me que bem gostaria, mas que teve um problema de saude que ja não lhe o permite. Alem disso, os filhos ja não vivem na região, não tem ninguem para pegar na vinha.


Pergunto-lhe se não esta interessado em arrendar a vinha e responde-me que não. Fico surpreendido e pergunto-lhe "porquê?"

"Sabe, dediquei-me muito a esta vinha, não imagina o trabalho que tive nela. Em tempo, cheguei a ir buscar estrume de proposito ao Sabugueiro...", "Prefiro deixa-la morrer, do que vê-la mal tratada por outra pessoa", "se reparou bem eu so deixo 3, 4 olhos nas videiras, não lhes deixo carga a mais".

Enquanto o homem me apresentava os seus argumentos, percebo que estou perante alguem que sabia do que estava a falar, sabio e apaixonado. 

Peço-lhe se é possivel provar o seu vinho. 
"Claro, vamos a isso". 

Descemos a loja. 
Os copos são os habituais copos de tasco, não são bem apropriados a prova, mas bom, se não permitem analisar os aromas, sempre permitem beber.

O homem abre dois garrafões, um de branco e outro de tinto, vira-se para mim e diz-me "agora é que vais ver o que é vinho!"

Serve primeiro o branco. Provo, sente-se o gas, deve ter engarrafado sem que a malolactica tenha terminado. Não da muito para ter uma opinião definitiva.


Depois serve-me o tinto. Pego no copo, levo ao nariz, apesar do formato do copo, parece-me estar ali algo de interessante.

Depois, levo o vinho a boca e ai passa-se algo fora do normal! 
O vinho esta limpissimo, sem alterações, puro, concentrado, tenso, com uma frescura terrivel. Um equilibrio impressionante!
Em termos de sabores, encontro uma mineralidade incrivel envolvida numa manta de fruta vermelha densa e fresca. Recordo-me que naquele momento veio a cabeça a imagem de pedras a rolarem num ribeiro, era mesmo essa a sensação que tinha na boca! Tipo ondas de pedras a rolarem num ribeiro de fruta. Sensações destas são mesmo raras, so mesmo em grandes vinhos. Fantastico! 


Viro-me para o homem e "digo-lhe gosto mesmo disto, tem razão, isto sim é vinho!", "é mesmo uma pena você deixar morrer a vinha".

Continuamos a falar e chegamos a um acordo que agrada a ambos. Experimento este ano, podo a vinha, trato dela, se no fim do ano o senhor gostar da minha maneira de trabalhar, continuo nos outros anos, se não gostar, saio.
















E

E agora a terceira vinha de que trato.
Em termos logisticos (e não so) começa a tornar-se complicado...
Mas se não experimentasse esta vinha, penso que ficaria sempre com remorsos.

A aventura vai assim crescendo passo a passo.

quarta-feira, 20 de março de 2013

O estrume compostado

Depois de o cavalo ter aberto os regos, la foi a minha dream team dar de comer as videiras com estrume compostado.



Um trabalho em que o pessoal se auto-organizou, encontrando sistemas e estratégias para serem o mais eficientes possivel.



Tudo decorreu lindamente.


As poucos, cada rego ia recebendo a sua dose de matéria organica.


Este trabalho de ventilação do estrume levou um dia a realizar.




Talvez não estejam a imaginar, mas o cheiro era mesmo intenso. No entanto, aos poucos uma pessoa habitua-se.


Ao meio dia juntamos nos todos na Pellada com o pessoal da adega que me têm ajudado, para assarmos umas febras. Passamos assim um bom momento de convivio.

A tarde o trabalho na vinha continuou.


Pessoalmente so la apareci a tarde. De manhã tive de andar a trasfegar vinho de 2012 de uma cuba de inox para as barricas usadas onde tinha o 2011.


Mesmo assim ainda fui a tempo de dar uma mão.


Na manhã a seguir, la se acabou o trabalho, tapando os regos com as enxadas.


A vinha ficou assim preparada para uns bons anos...


...Pelo menos assim o espero.


Veremos como reagera a vinha nos proximos tempos.

sábado, 16 de março de 2013

O cavalo na vinha centenaria

Tal como vos tinha contado anteriormente, a vinha centenaria estava a precisar da ajuda do Homem, para ganhar algum vigor.

Tinhamos a encontrado muito mal tratada, com carga a mais nas podas anteriores, que a tinham deixado muito cansada. Na poda deste ano, a primeira que fiz nesta vinha, deixamos muito pouca carga, a ver se recupera. Nas varas mais fracas, com poucos millimetros de espessura, deixamos, 1, 2, 3 olhos no maximo.

Alem desta poda severa, notava-se que a vinha precisava de comer. Ja não era estrumada ha muitos anos, e notava-se que estava esfomeada. Aproveitei por isso a semana que estive por la em finais de fevereiro para tratar, entre outros deste assunto.

A primeira coisa a fazer, foi encontrar alguem que saiba e esteja habituado a trabalhar com cavalos na vinha. Não foi facil, pois com o desaparecimento progressivo das vinhas velhas, esta arte tambem segue o mesmo caminho.


Mas la consegui e devo dizer que gostei muito da pessoa que encontrei, daquelas pessoas que se nota mesmo que são boas pessoas. Pessoa que conhecia os meus avos e que fui buscar la em cima a Serra.
O cavalo, esse, era mesmo bonito. Aproveitei para levar comigo a minha filha de dois anos, ficou toda contente por ver o "cavalito".


Na quinta-feira de manhã, la se abriram os regos que serviriam a depositar o estrume compostado.


O cavalo puxava o arrade, obedecendo a voz do seu mestre.


A ideia era fazer um rego com duas passagens, carreira sim, carreira não, de maneira a tambem não estrumar demasiado. Mais uma vez, o que importa é o equilibrio!


Um trabalho em que o Homem e o animal conjugam esforços, ligados por laços e instrumentos de outrora.


Era impressionante como o animal percebia e cumpria as instruções do mestre.


Quando chegava ao fim de uma carreira, parava. Ouvia um "vira" e la virava.


Depois, ouvia um "ai não, segue". Resultado : não entrava na carreira seguinte e continuava até ouvir outro "vira".


Conseguia-se assim cumprir o "carreira sim, carreira não", de uma forma tão facil que uma pessoa ficava de boca aberta. Alem de bonitos, os cavalos são mesmo inteligentes!


Cada rego levava duas passagens, para ficarem mais fundos. Idealmente pretendia três passagens, mas o arrade não dava para mais. Por isso, a seguir a "enchada" tambem funcionou.


O trabalho avançava rapidamente, em pouco mais de uma hora, ficaram todos os regos prontos.


De vez em quando, o cavalo, simpactico, ia-nos brindando com umas ofertas...


... de fertilizante gratuito  ;)


Foi uma bela experiência, um bom momento que gostei mesmo de viver.
Alem disso ganhei um novo amigo, com quem poderei contar no futuro.


No dia a seguir, seria a vez de por o estrume compostado nos regos, mas isso contarei no proximo post!