quarta-feira, 20 de março de 2013

O estrume compostado

Depois de o cavalo ter aberto os regos, la foi a minha dream team dar de comer as videiras com estrume compostado.



Um trabalho em que o pessoal se auto-organizou, encontrando sistemas e estratégias para serem o mais eficientes possivel.



Tudo decorreu lindamente.


As poucos, cada rego ia recebendo a sua dose de matéria organica.


Este trabalho de ventilação do estrume levou um dia a realizar.




Talvez não estejam a imaginar, mas o cheiro era mesmo intenso. No entanto, aos poucos uma pessoa habitua-se.


Ao meio dia juntamos nos todos na Pellada com o pessoal da adega que me têm ajudado, para assarmos umas febras. Passamos assim um bom momento de convivio.

A tarde o trabalho na vinha continuou.


Pessoalmente so la apareci a tarde. De manhã tive de andar a trasfegar vinho de 2012 de uma cuba de inox para as barricas usadas onde tinha o 2011.


Mesmo assim ainda fui a tempo de dar uma mão.


Na manhã a seguir, la se acabou o trabalho, tapando os regos com as enxadas.


A vinha ficou assim preparada para uns bons anos...


...Pelo menos assim o espero.


Veremos como reagera a vinha nos proximos tempos.

sábado, 16 de março de 2013

O cavalo na vinha centenaria

Tal como vos tinha contado anteriormente, a vinha centenaria estava a precisar da ajuda do Homem, para ganhar algum vigor.

Tinhamos a encontrado muito mal tratada, com carga a mais nas podas anteriores, que a tinham deixado muito cansada. Na poda deste ano, a primeira que fiz nesta vinha, deixamos muito pouca carga, a ver se recupera. Nas varas mais fracas, com poucos millimetros de espessura, deixamos, 1, 2, 3 olhos no maximo.

Alem desta poda severa, notava-se que a vinha precisava de comer. Ja não era estrumada ha muitos anos, e notava-se que estava esfomeada. Aproveitei por isso a semana que estive por la em finais de fevereiro para tratar, entre outros deste assunto.

A primeira coisa a fazer, foi encontrar alguem que saiba e esteja habituado a trabalhar com cavalos na vinha. Não foi facil, pois com o desaparecimento progressivo das vinhas velhas, esta arte tambem segue o mesmo caminho.


Mas la consegui e devo dizer que gostei muito da pessoa que encontrei, daquelas pessoas que se nota mesmo que são boas pessoas. Pessoa que conhecia os meus avos e que fui buscar la em cima a Serra.
O cavalo, esse, era mesmo bonito. Aproveitei para levar comigo a minha filha de dois anos, ficou toda contente por ver o "cavalito".


Na quinta-feira de manhã, la se abriram os regos que serviriam a depositar o estrume compostado.


O cavalo puxava o arrade, obedecendo a voz do seu mestre.


A ideia era fazer um rego com duas passagens, carreira sim, carreira não, de maneira a tambem não estrumar demasiado. Mais uma vez, o que importa é o equilibrio!


Um trabalho em que o Homem e o animal conjugam esforços, ligados por laços e instrumentos de outrora.


Era impressionante como o animal percebia e cumpria as instruções do mestre.


Quando chegava ao fim de uma carreira, parava. Ouvia um "vira" e la virava.


Depois, ouvia um "ai não, segue". Resultado : não entrava na carreira seguinte e continuava até ouvir outro "vira".


Conseguia-se assim cumprir o "carreira sim, carreira não", de uma forma tão facil que uma pessoa ficava de boca aberta. Alem de bonitos, os cavalos são mesmo inteligentes!


Cada rego levava duas passagens, para ficarem mais fundos. Idealmente pretendia três passagens, mas o arrade não dava para mais. Por isso, a seguir a "enchada" tambem funcionou.


O trabalho avançava rapidamente, em pouco mais de uma hora, ficaram todos os regos prontos.


De vez em quando, o cavalo, simpactico, ia-nos brindando com umas ofertas...


... de fertilizante gratuito  ;)


Foi uma bela experiência, um bom momento que gostei mesmo de viver.
Alem disso ganhei um novo amigo, com quem poderei contar no futuro.


No dia a seguir, seria a vez de por o estrume compostado nos regos, mas isso contarei no proximo post!

domingo, 10 de março de 2013

Pesquizas pelo deserto

Nestes dias de inverno, aproveitei algum tempo livre para continuar as minhas pesquizas por terras do Dão serrano. Desta vez aproveitei para ir até aldeias que ainda não tinha explorado.

Num Domingo a tarde, la fui mais uma vez a procura dos sitios certos. O tempo estava cinzento e frio, nada convidativo. Cheguei a uma pequena aldeia de que ja tinha ouvido falar mas onde ainda não tinha nenhu contactos. O carro andava devagar para que possa andar a olhar a volta a ver se via algo de interessante.

Entro na povoação e nada, ninguem nas ruas. Continuo e não vejo uma unica alma. E caso para dizer que por estas bandas do interior do pais a desertificação ja anda bem adiantada.

O carro continua a rodar pelas ruas estreitas da povoação até que, num momento de lucidez, vejo gente por uma pequena janela, num local que me parece ser um "clube", um daqueles tascos que so abrem ao fim de semana ou em certas ocasiões ao fim dos dias de semana. Estaciono, saio do carro e la vou eu até ao "clube".

Ao entrar, deparo com uma pequena sala, onde se juntaram umas vinte pessoas, todas dos 60 anos para cima. Aproximo-me do bar e peço o mesmo que todos estão a beber, um tinto. O senhor atras do balcão saca um garrafão e serve-me num daqueles copos tipicos dos tascos. Aproveito para lançar a conversa, perguntando ao senhor se o vinho era da aldeia, ou se vinha de alguma cooperativa. Responde-me que é da aldeia e que ali so servem os vinhos da gente local. Muito bem!

Provo o vinho, muito bom, sim senhor, belo vinho, bem acima dos vinhos correntes engarrafados, bem mais saboroso. Continuamos a conversa, faço perguntas a cerca das vinhas locais, dos encepamentos, das idades das vinhas, dos solos, do clima, etc... Aos poucos entram tambem outras pessoas na conversa, o pessoal anima, e la fiquei assim umas duas horas a conversa com pessoas com idade para serem meus avos.

Chega um momento e pergunto : "então e quais sãos as castas que aqui se dão melhor?"
No inicio respondem-me varias vezes "aqui dão se todas bem, o Tourigo, o Alfrocheiro, o Jaen, o Fernão Pires, o Borrado das Moscas..."
"Ok mas não ha uma que se destaca mais, que se da melhor?"
"Da-se tudo bem, aqui é a zona do Dão por excelência"
Insisto, virando-me para o senhor detras do balcão : "Então e você não tem nenhuma casta que aprecia mais do que as outras?"
Responde-me "O Jaen, aqui é tudo bom mas o Jaen é que é"
"Porque razão o Jaen?"
"Aquele aroma é imbativel"
De repente, toda a sala se poem a dizer "pois é o Jaen é que é", "e mais te digo, se não juntares Jaen ao Tourigo, o vinho ja não sai tão bom", "pois é o Tourigo sozinho não vale nada"...

Depois de mais umas conversas, la volto eu para casa, com a convicção de cada vez melhor conhecer a região e as suas gentes, mas ao mesmo tempo com a consciência de que algo de grave se esta a passar por aqui. Daqui a dez/vinte anos, se dar a mesma volta, voltarei a encontrar algume por estas bandas?

sábado, 9 de março de 2013

Poda 2013

Como diria o Pingus Vinicus, as vezes mais valem as imagem do que muitas palavras. 
Aqui ficam algumas fotos da poda 2013 da vinha que salvei, sem grandes textos a acompanhar.

Antes de se iniciar a poda, existe na vinha uma sensação de desordem, um lado selvagem.


Depois intervem o Homem e fica tudo mais ordenado, menos inquietante.



A equipa deste ano estava bem composta, com gente competente, gente da terra e disposta a ajudar a fazer um trabalho como deve ser.


Como não podia deixar de ser quando se quer anticipar e prevenir eventuais males, as vides foram logo apanhadas e queimadas.


A vinha ficou assim a espera da proxima intervenção humana, que consistera em trabalhar o solo.


Intervenção que a hora em que estou a escrever este post, ja começou.

terça-feira, 5 de março de 2013

A semana maratona

Estou de regresso a Paris depois de uma semana intensa na santa terra.


Foi uma semana que passou muito rapido e que me deixou exausto, pois foi uma maratona, sempre a correr contra o tempo.
Montes de assuntos para tratar relacionados com o meu projecto vitivinicola, a varios niveis.
Tinha preparado uma lista de mais de vinte items a resolver... 

Sabia que, como sempre, não iria conseguir fazer tudo. Mesmo assim consegui fazer mais do que pensava. 

Para tal tive de delegar parte do trabalho. Por exemplo um dos temas a tratar era o da poda da vinha que salvei. 

Tive la 7 pessoas a podar e a empar durante dois dias. Pessoalmente no primeiro dia so la passei meia hora e no segundo so la estive a tarde. Não é que não goste de podar, pelo contrario adoro isso. Mas se queria tratar tudo o que tinha para tratar nesta semana, tinha mesmo de ser assim este ano...

Acabamos tambem de empar a vinha centenaria.
A proposito, tinha-vos contado num post anterior que encontramos essa vinha mal tratada nas podas anteriores, cêpas cansadas e varas muito finas. Por isso, durante esta semana tambem tive de organizar a fertilização da terra, pois as videiras estavam esfomeadas. Para tal tive de andar a procura de alguem que pudesse abrir a terra com uma cavalo.


Depois de encontrar a pessoa certa e de combinar tudo fui a procura do estrume organico, organizar o seu transporte e avisar o pessoal. As diferentes tarefas foram assim planificadas e tudo decorreu na boa disposição.


A vinha pode assim alimentar-se, a ver se ganha outra vitalidade nesta e nas proximas colheitas. Alem do estrume a pouca carga deixada devera ajudar.

Um dos varios outros temas de que tratei nestes dias foi a prepração do futuro, em particular a pesquiza de mais "crus" do Dão. O minimo que posso dizer é que a pesca foi boa. 


Comprometi-me a tratar de mais uma vinha e tenhoa mais umas a espera de experiências.
Estive a contar ao todo tenho 14 vinhas identificadas.


 Embora o Dão mereça que o faça, falta agora é tempo e dinheiro para transformar isto em garrafas nas vossas mesas.

Nos proximos posts falarei um pouco mais em pormenor destes diferentes temas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Negro Mouro

Nos tempos que vivemos, onde a standardização acaba aos poucos com a diversidade, importa tentar preservar o patrimonio ampelografico de que dispomos em Portugal.
Pessoalmente acredito que alem da questão ecologica, esta preservação podera se tornar num grande trunfo para o futuro da vitivinicultura nacional.

Embora muitos concordem com isto nas palavras, depois nos actos nem sempre isso se reflete.
Um dos meus objectivos é contribuir a essa preservação.

Das castas presentes na vinha velha da qual provem o meu 2011, talvez a mais esquecida de todas seja o Negro Mouro.

"Negro Mouro" é o nome regional pelo qual era conhecida no Dão a casta mais conhecida a nivel nacional pelo nome de "Camarate".

Na vinha reconhece-se principalmente pela folha algo rustica. Não é uma casta facil por ser tardia e sensivel.

Provavelmente alguns de vocês ja a provaram sem o saber, pois é uma casta muito presente na vinha velha da Quinta da Pellada, cujo vinho entra no lote do vinho do mesmo nome.

Não resisto a tentação de transcrever uma frase tirada do Grande Livro das Castas (Jorge Böhm), acerca desta casta :
"Embora se trate duma casta com grande tradição historica, reconhecemos tratar-se de uma variedade que actualmente não produz vinhos ao gosto do mercado."

Tirem as conclusões que quiserem!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O rotulo do 2011 - L'étiquette du 2011

Depois de longas semanas de trabalho com o meu amigo Antonio Rodrigues, tenho o prazer de vos apresentar aquele que sera em principio o rotulo do meu vinho de 2011.

Après de longues semaines de travail avec mon ami Antonio Rodrigues, j'ai le plaisir de vous présenter celle qui sera en principe l'étiquette de mon vin de 2011.


Peço-vos que partilhem a vossa opinião. Não se envergonhem, digam la a vossa justiça!

A vos commentaires!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O 2011 no daowinelover meeting

O #daowinelover meeting foi tambem especial para mim por ser uma oportunidade para dar a provar amostras do meu vinho de 2011 e assim ter algum feedback, recolher opiniões.

Foto de Jorge Filipe Nunes

O balanço foi francamente positivo.
As pessoas demostraram curiosidade, provaram e partilharam comigo as suas impressões, quer seja na hora, quer seja mais tarde por mensagens via facebook.
As pessoas queriam perceber a origem do vinho, quais as castas e os principios nele contido.

Escrevi um texto destinado ao contra-rotulo, que acho que sintetiza bem as respostas a estas perguntas.
Aqui vai : 
Este vinho nasce numa vinha velha salva do abandono, onde se destacam castas autóctones, quase esquecidas, como a Tinta Pinheira, o Negro Mouro e a Tinta Amarela. 
Foi vinificado com o objectivo de expressar a pureza do "terroir” granítico da Serra da Estrela, tal como seria no tempo dos nossos avós.

A todos um grande bem haja pelos comentarios! 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A poda da vinha centenaria

Na quinta-feira 24 de Janeiro, mal cheguei a terra santa, aproveitei logo a primeira tarde para ir podar.
Fomos três pessoas, o meu sogro, o Ti Zé Rebelo e eu. No dia seguinte tb foi o meu primo Flavio "Sokota" para apanhar as vides.

Foram bons momentos, que aqui vou relatar.


As cêpas apresentavam formas que têm mais a ver com o contorcionismo do que com os standards da viticultura actual.



Começamos pela parte de baixo.


E fomos subindo, levando duas carreiras de cada vez.


Eu alternava entre a carreira do meu sogro e do Ti Zé Rebelo.


As varas iam ficando em pequenos montes carreira sim, carreira não.


As varas foram depois apanhadas e queimadas pelo meu primo Flavio aka "Sokota".



Pelas varas conseguiamos reconhecer algumas castas brancas e tintas.


Nas brancas reconhecemos o Bical, conhecido localmente pelo nome de "Borrado das Moscas".


Nas tintas reconhecemos bastantes cêpas de Jaen e de Baga.


La mais para a frente, despois do abrolhamento, quando começarem a aparecer as folhas, ja se podera identificar mais castas pela forma da folha.


Encontramos videiras muito cansadas. Notava-se que pelo menos na poda do ano anterior houve um claro abuso a nivel da carga deixada. Não era rara a vez em que encontramos videira com 16 ou 20 varas, um exagero para cêpas tão antigas. Não temos duvidas que a continuar assim, em meia duzia de anos morriam todas...


Encontravamos assim, principalmente na parte de baixo, varas muito finas e curtas, com muito pouco vigor. A vinha estava cansada e esfomeada.
Para resolver isto tivemos muita vez de apenas deixas três olhos, a ver se a vinha ganha vigor este ano.
Por isso, a colheita sera pequena este ano, mas a situação que encontramos assim o obriga. Pelo menos se formos sérios a salvar a vinha.


Podar é relaxante!
Pelo menos para mim, que vivo numa grande cidade, é uma actividade que me permite evacuar o stress acumulado. E mesmo muito bom, actividade manual mas ao mesmo tempo cerebral, tecnica, a levar-nos a tomar varias decisões, pois cada cêpa é um caso a resolver.



 Longe da cidade, aqui so se houvem os passaros e o vento. Quando se tem consciencia disto, o momento presente torna-se jubilatorio.
Os amadores do Yoga estão avisados, têm aqui uma boa alternativa!


 No cimo da vinha encontra-seuma tradicional palheira ;)


O Ti Zé Rebelo, com 88 anos de experiência, la ia podando cêpas ainda mais idosas do que ele.
"Este sitio é muito bom, ha poucas vinhas assim tão barreirentas" dizia-lhe referindo-se ao declive, solo e orientação da vinha.
"Pena é a vinha estar no estado em que esta", "vais ter pouco vinho"...


Ainda recebemos uma visita :)


A visita de uma pessoa sem a qual nada disto seria possivel.


Agora a proxima fase sera estrumar a vinha. Ela esta esfomeada, bem precisa para reforçar o vigor.
Para tal tera de vir alguem que tenha um cavalo para abrir a terra, pois as carreiras são estreitas, não permitem a entrada de tractor. Alias mesmo com o cavalo não sera facil, pois o espaço para virar tambem é curto. Vai ser engraçado!